Divagando por aí.... Pescar palavras, ideias, imagens com sentido, sem sentido, mas sempre, sempre com os sentidos à flor da pele. Às fotografias e textos que vou fazendo, igualmente junto coisas que gosto. De amigos, ou de pessoas que admiro. Por aqui viverá a textura da minha pele. Por aqui escorrerá a minha vida.

"Os cineastas têm um arco-voltaico incandescente num coração que bate a 24 imagens por segundo.
Os fotógrafos, esses, revelam-nos o infinito à velocidade da luz"
José Carlos Faria

 
 
Jacque Brel et Maurice Béjart O Homem das Castanhas
Na Praça da Figueira, ou no Jardim da Estrela, num fogareiro aceso é que ele arde. Ao canto do Outono, à esquina do Inverno, o homem das castanhas é eterno. Não tem eira nem beira, nem guarida, e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida, e, se não mata a fome, mata o frio. Um carro que se empurra, um chapéu esburacado, no peito uma castanha que não arde. Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado o homem que apregoa ao fim da tarde. Ao pé dum candeeiro acaba o dia, voz rouca com o travo da pobreza. Apregoa pedaços de alegria, e à noite vai dormir com a tristeza. Quem quer quentes e boas, quentinhas? A estalarem cinzentas, na brasa. Quem quer quentes e boas, quentinhas? Quem compra leva mais calor p'ra casa.
A mágoa que transporta a miséria ambulante, passeia na cidade o dia inteiro. É como se empurrasse o Outono diante; é como se empurrasse o nevoeiro. Quem sabe a desventura do seu fado? Quem olha para o homem das castanhas? Nunca ninguém pensou que ali ao lado ardem no fogareiro dores tamanhas.
Quem quer quentes e boas, quentinhas? A estalarem cinzentas, na brasa. Quem quer quentes e boas, quentinhas? Quem compra leva mais amor p'ra casa.
Ary dos Santos

"Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima - eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim te procuram. Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. - E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo- não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura. Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço –e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer coisa extraordinária.Porque não sei como dizer-te sem milgares que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, que te procuram. Herberto Helder Swan Lake Odette Variation, TCHAIKOVSKY (Svetlana Zakharova) 
 Dave Brubeck - Stardust 
The LeadersSeixal Jazz, 2008CURTIS FULLER
Gustav Courbet (1828-1885) Seacoast
"A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo."
Agustina Bessa-Luís, in Dicionário Imperfeito
The Music Teacher - Ich Bin Der Welt Abhanden Gekommen

Horizontal, 1924 Improvisation 30, 1913The Art Institute of Chicago
(aqui a lembrar as cores da cerâmica do Eduardo Constantino)

  
  
   
 Se ainda não foram, não deixem de ir à Galeria Ogiva em Óbidos (até 2 de Novembro)
(...) "Se a natureza é matéria, a reconstrução a que o ceramista procede, tirando partido do que podemos antecipar para melhor preparar a explosão da metamorfose, é um exercício idêntico ao da poética. Estamos perante o que os gregos , para distingui a mera reprodução do real da narração criativa chamaram transfiguração. A transfiguração torna possível um novo mundo. Este é talvez o conceito que melhor identifica a obra de Eduardo Constantino"
João B. Serra in Eduardo Constantino CHROMA, catálogo da exposição, Galeria Ogiva, Out./Nov. 2008 
 
"Não tenho bens de acontecimentos.O que não sei fazer desconto nas palavras.Entesouro frases. Por exemplo:- Imagens são palavras que nos faltaram.- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.Ai frases de pensar!Pensar é uma pedreira. Estou sendo.Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)Concluindo: há pessoas que se compõem de actos, ruídos, retratos. Outras de palavras. Poetas e tontos se compõem com palavras."
Manoel de Barros "O Guardador de Águas" Clarinetista,1961Pintura a têmpera/tela 195 x 129 cmColecção particular, Belo Horizonte Músico c.1959 Pintura a óleo/cartão 24.5 x 13.8 cm Colecção particular, Rio de Janeiro
Aquarela do Brasil, Ari Barroso Clarinetista,1960
Pintura a óleo/madeira 63 x 52cm (aproximadas) Colecção particular, Belo Horizonte

"Tu és o nó de sangue que me sufoca.Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendõesda madeira fria. És uma faca cravada na minhavida secreta. E como estrelasduplasconsanguíneas, luzimos de um para o outronas trevas."Herberto HelderPHOTOMATON & VOXAssírio & Alvim1995 A Música1939óleo s/ canvas (115.2 x 115.2 cm)Albright-Knox Art Gallery, Buffalo, NY
O AlaúdeFevereiro 1943Óleo s/ canvas (59.4 x 79.5 cm)Colecção privada
A Lição de Música 1917 Óleos s/ canvas(244.7 x 200.7 cm) Barnes Foundation, Merion, PA STING & EDIN KARAMAZOV - ST LUKES CONCERETTE PART 2

Jazz (1947) é um livro com cerca de cem gravuras feitas com base em recortes de papel. Os temas são o teatro e o circo. A linha de orientação, a improvisão, daí Jazz.
O artista escreveu em 1947 a um amigo " Existem coisas maravilhosas no verdadeiro jazz, o talento de improvisar, a vivência, do músico e do público tornarem-se apenas num". Ícarus 1947 da série "Jazz"
O DestinoPlate XVI da série "Jazz"
O Lançador de facasXV da série "Jazz"
O CircoPlate II da série"Jazz" Charlie Parker & Dizzy Gillespie 
"Música pintada" foi uma recolha feita no ano passado numa homenagem à pintura e à música.A vossa ajuda será bem vinda. "a vida inteira para fundar um poema,a pulso,um só, arterial, com abrasadura,que ao dizê-lo os dentes firam a língua,que o idioma se fira na boca inábil que o diga,só quase pressentimento fonético,filológico,mas que atenção, paixão, alumiação¿e se me tocam na boca?de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,a noite extraterrestre bruxulear um pouco,o último,assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,papel de seda que a rútila força lírica rompa,um arrepio dentro dele,batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,e assim a mão escrita se depura,e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,manchas ultravioletas a arder através do filme,leve poema técnico e trémulo,linhas e linhas,línguas,obra-prima do êxtase das línguas,tudo movido virgem,e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento¿tenho acaso no nome o inominável?mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,mas com grandes mãos, e eu brilhei,o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?fora? dentro?no aparte,no mais vidrado,no avesso,no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,fibra lavrada sangrando,uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctricacomo alma: plenitude,através de um truque:os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,poema trabalhado a energia alternativa,a fervor e ofício,enquanto a morte come onde me pode a vida toda" Herberto Hélder, A faca não corta o fogo, Assírio e Alvim, Lisboa, 2008 |
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